sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

para um poema de carlos nejar





Nossa sabedoria é a dos rios.

Não temos outra.

Persistir. Ir com os rios,

onda a onda.



Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.

Intactos passaremos sob a correnteza

feita por nós e o nosso desespero.

Passaremos límpidos.



E nos moveremos,

rio dentro do rio,

corpo dentro do corpo,

como antigos veleiros.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

um museu de arte nipo brasileira





Caminhando pela São Joaquim, na Liberdade, vi o grafite dos OsGêmeos num tapume de obras. Quando parei para observar vi que era um mural, obra de vários artistas. Atrás do tapume, as ruínas de um prédio centenário, o antigo Colégio Campos Sales. Uma placa indicava que ali seria o futuro Museu de Arte Moderna Nipo-Brasileira Manabu Mabe. Adorei a idéia. Como já anoitecia, resolvi voltar outro dia pra fotografar.

Pesquisando um pouco, descobri que o prédio foi tombado e a construção é de 1912, projeto do italiano Giovanni Battista Bianchi (1885-1942). O edifício sofreu um incêndio em 1992 e a escola foi transferida para outro lugar. O projeto do Museu é do Instituto Manabu Mabe.




Além do acervo do Instituto Manabu Mabe, o Museu deverá receber mais cem obras de artistas nipo-brasileiros e brasileiros. O projeto prevê a construção de um centro de pesquisa, biblioteca, salas de aulas e salas de exposições.

Voltei lá. A rua é estreita, com muito movimento de carros, pouco espaço para fotografar o mural. Eu estava nisso quando percebi uma porta aberta. Espiei, não havia ninguém atrás do tapume. Resolvi entrar no edifício. Os trabalhadores estavam no fundo, ninguém se importou comigo. Comecei a fotografar. De repente, em meio às paredes cinza, janelas sem vidros, andaimes, capacetes de proteção, vi o painel de Mabe: absoluta surpresa, pura vibração do azul, pura vibração do vermelho. Click. Mas, antes que eu pudesse subir as escadas e continuar com minha incursão pelo prédio, apareceu o engenheiro: - tem autorização? Não, eu não tinha. Ele me acompanhou até a rua e trancou a porta. Paciência.

Está prevista uma exposição em junho, como parte das comemorações do centenário da migração japonesa. Voltarei. Com certeza serão outros prazeres.

























































sábado, 23 de fevereiro de 2008

para um poema de hilda hilst


Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.

Também eu em ti, feroz, encantoada

Atravessei as cercaduras raras

E me fiz máscara, mulher e conjetura.

Águas que não bebi. Crepusculares. Cavas.

Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes

Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo

Antiquíssima, nova. Como se fosses o tigre

A beber daquelas águas.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Para um poema de affonso manta


Fazer da brisa um traje sem medida

E do arco-íris fazer um tobogã

Amar as mínimas coisas da vida

E ter no olhar as luzes do amanhã


terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

para o vinícius


boi

boi

boi

boi da cara preta

pegue esse menino

que tem medo de careta


domingo, 17 de fevereiro de 2008

a todos aqueles que plantam de noite e colhem de dia

Acabou o horário de verão. E todo ano é a mesma coisa: tem gente que reclama, tem gente que gosta e outros que nem se abalam. Os jornais, que precisam inventar novidades sobre assunto tão banal, além dos lembretes aos desavisados sobre a necessidade de atrasar os relógios, divulgam os números relativos à economia de energia que conseguimos nesse período, e ai, pra dar um coloridozinho, acabam indo atrás de alguma curiosidade, tipo relógios difíceis de acertar, seja pelo seu mecanismo complexo, seja pelas dificuldades de acesso, sobre a extinção dos relojoeiros, ou qualquer variação sobre o tema da precisão e manutenção de relógios.


Esse ano, a regra confirmou-se. Estão lá os números de quanto economizamos. E para que tenhamos a compreensão do que significa os 4,2% de energia, fazem comparações, equivalências, tentando dar concretude aos números: uns 60% do consumo da cidade do Rio de Janeiro ou 80% de Curitiba nos horários de pico, ou a energia gerada por uma imensa hidrelétrica de 1.557 MW. Soube também que essa foi a 37ª edição do horário de verão e que ele vigora por 22 anos consecutivos.



- Será que o tema desse blog passou a ser curiosidades? Não, não. É que uma coisa leva à outra. E como a matéria do jornal falava sobre os relógios nas estações do metro, dos trens metropolitanos, e dos terminais de ônibus - mais de 700 relógios mostrando a hora certa para quem não pode perder o trem - me lembrei do mural dos OsGêmeos, lá no Cambuci.












Uma homenagem aos trabalhadores noturnos. Aos que por necessidade ou por prazer, fizeram adaptações nos seus relógios biológicos.


Aos que plantam de noite e colhem de dia.











sábado, 16 de fevereiro de 2008

sincronicidades, sincretismos...



Jorge sentou praça na cavalaria

Eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia

Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge

Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem

Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem

Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam

E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo, meu corpo não alcançarão

Espadas, facas e lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar

Cordas e correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar

Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é de Capadócia, viva Jorge

Jorge é de Capadócia, salve Jorge
Perseverança ganhou do sórdido fingimento

E disso tudo nasceu o amor








quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

ogun iê, ogun iê, salve Ogum


Ogum e seus amigos Alaká e Ajero foram consultar Ifá.Queriam saber uma forma de se tornarem reis de suas aldeias. Após a consulta foram instruídos a fazer ebó.
Tempos depois, os amigos de Ogum tornaram-se reis de suas aldeias, mas a situação de Ogum permanecia a mesma. Preocupado, ogum foi novamente consultar Ifá e o advinho recomendou que refizesse o ebó. E depois disso, deveria esperar a próxima chuva e procurar um local onde houvesse ocorrido uma erosão. Ali devia apanhar da areia negra e fina e colocá-la no fogo para queimar.
Ansioso pelo sucesso, Ogum fez o ebó e, para sua surpresa, ao queimar aquela areia, ela se transformou na quente massa que se solidificou em ferro.
O ferro era a mais dura substância que ele conhecia, mas era maleável enquanto estava quente. Ogum passou a modelar a massa quente. Ogum forjou primeiro uma tenaz, um alicate para retirar o ferro quente do fogo. E assim era mais fácil manejar a pasta incandescente. Ogum então forjou uma faca e um facão. Satisfeito, Ogum passou a produzir toda espécie de objetos de ferro, assim como passou a ensinar seu manuseio.
Veio fartura e abundância para todos. Dali em diante Ogum Alagbedé, o ferreiro, mudou. Muito prosperou e passou a ser saudado como Aquele que Transforma a Terra em Riquezas.
(mitologia dos orixás - reginaldo prandi)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

para um poema de guilherme zarvos


Por um dia – não
foram apenas horas –
senti sublime, incontido
amor
Veio de início cândido
a respiração tinha o som
do vento manso raspando
uma fresta
Bastou uma condenada hora
do corpo ausente
Para que ouvisse a reprovação dos Deuses
Pela ousadia de sentir-me
um igual
explodiu, ditames do
subterrâneo,
dor – santo, santo
santo – me pus
de joelhos querendo
refrear e
queimava, por mais que
me encolhesse.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Quem disse que cabelo não sente




Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada

Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada

Quem disse que cabelo não sente

Quem disse que cabelo não gosta de pente

Cabelo quando cresce é tempo

Cabelo embaraçado é vento

Cabelo vem lá de dentro

Cabelo é como pensamento

Quem pensa que cabelo é mato

Quem pensa que cabelo é pasto

Cabelo com orgulho é crina

Cilindros de espessura fina

Cabelo quer ficar pra cima

Laquê, fixador, gomalina

Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada

Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada


Quem quer a força de Sansão

Quem quer a juba de leão

Cabelo pode ser cortado

Cabelo pode ser comprido

Cabelo pode ser trançado

Cabelo pode ser tingido

Aparado ou escovado

Descolorido, descabelado

Cabelo pode ser bonito

Cruzado, seco ou molhado


arnaldo antunes

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

para um poema de jacques prévert


Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer...
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode também ser que leve
muitos anos
a pressa ou a lentidão do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro.
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insetos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo.
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

ano novo chinês



No calendário chinês o ano inicia-se hoje, com a primeira lua nova, e termina em 25 de janeiro de 2009.
É o ano do Rato e, segundo os chineses, será um ano marcado pela fartura e fortuna. Um ano favorável para as atividades produtivas, para o comércio, para os negócios em geral.
Oxalá, isso não signifique exageros, consumos desmedidos, desperdícios!
Que todos tenham conforme suas necessidades!
Que as necessidades não sejam exageradamente fantasiadas!

Bom Ano do Rato!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

teimosia é a arte do guerreiro




Há muito que as largas colunas que sustentam o Minhocão se transformaram numa galeria de arte aberta ao público que diariamente circula por ali. Quantas exposições já foram montadas! Quantos temas, quantos artistas já se alternaram no uso daquele espaço... E o curador que organiza isso tudo? Um mistério. O resultado é fruição estética dos grafites, reflexão sobre as mensagens, comunicação com o público que mora ou circula por essa área.
Desde sua construção em 1970, foram muitas as críticas feitas a essa estrutura construída por Paulo Maluf quando foi prefeito da cidade. Já se tentou de tudo, até concurso, pra encontrar uma solução que eliminasse o monstrengo que atravessa parte do centro de São Paulo.
Um paliativo foi recorrer aos artistas plásticos. Projetos já foram financiados na tentativa de recuperar a área. Grafiteiros fazem sua parte, voluntariamente expõem ali.
Entretanto, o Minhocão também parece ser a área prioritariamente eleita pela prefeitura na sua já conhecida política de “limpeza urbana”. Os grafites são imediatamente apagados. Em seu lugar, domina o cinza-pardacento bem ao gosto da prefeitura. Mas, é só uma batalha. Porque a luta contra a feiura continua. Os guerreiros que o digam.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Sprays poéticos





Esse spray poético é de OZI, assinatura do artista Ozéas Duarte, grafiteiro paulista de primeira geração, atuando desde 1985, ao lado de outros históricos: Maurício Villaça e Alex Vallauri.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Bloco Afro Ilú Obá de Min


Eu estou longe de ser considerada uma carnavalesca, seja lá a idéia que se faça sobre isso. Durante o carnaval, quando não viajo, usufruo a cidade mais vazia, sem trânsito e filas, longe de qualquer atividade ou evento que lembre as folias de Momo. Mas, recebi um convite para ir ver o Bloco Afro Ilú Obá de Min. Já tinha ouvido falar da sua bateria formada só por mulheres, das suas oficinas de percussão, dos ensaios realizados na rua, e fiquei com vontade de ver.


Sexta-feira, 9 da noite, o Bloco estava concentrado no viaduto Major Quedinho e dali, conduziu o cortejo até o Largo Paissandu, em frente à Igreja dos Homens Pretos. Adorei. O tema foi sobre um mito de criação nagô: Do Òrún ao Àiyé, ou seja, do céu, ou do mundo espiritual à Terra, ao mundo físico e material. Do Òrún, rei-pai dando uma missão a sua filha-princesa de criar a terra e tudo que tem existência material. Para cumprir essa missão, a princesa Odùduà teve ajuda dos Orixás: Exu, mensageiro; Ogun, senhor dos caminhos e das direções; Ossain, espalhando as sementes das plantas; Oxossi, senhor da caças, trazendo alimentos; e Oxum, que preparou os mortais para receberem os Orixás.





O que me surpreendeu não foi o tema, ligado à religiosidade afro brasileira, mas o fato do carnaval ser celebrado como uma festa que é também religiosa. Uma fusão que recria tradições. A saudação, o canto, a coreografia e o toque dos tambores pra os Orixás; a presença imponente de cada um deles sobre as pernas de pau, à frente do cortejo; a alegria que conduziu tudo.

Aguardem: próximo carnaval viro batuqueira e me integro a essa bateria!










veja programação:

http://www.iluobademin.com.br/

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Sprays poéticos



Na Vila Madalena, novamente. É um dos paraísos do grafite. E novamente, uma parceria perfeita : poemas de Alice Ruiz e grafite de Celso Gitahy.