sexta-feira, 12 de julho de 2013

a mulher de Lot




Dizem que olhei para trás de curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena da tigela de prata.
Por distração - amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de idéia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
Aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus – simplesmente tudo que vivia
Serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento bateu,
despenteou meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.

É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.

wislawa szymborska

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

para um poema de fabrício carpinejar (3)



Chega um momento em
que somos aves na noite,

pura plumagem, dormindo de pé,
com a cabeça encolhida.
O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais: jornais, retratos,
poemas, posteridade.
Minha bagagem
é a roupa do corpo.



quarta-feira, 14 de julho de 2010

retrato de menina


Os cabelos, não.
Tampouco olhos.
Nada além do sorriso:pedras
que as palavras atravessam rápidas
como lagartos, muro
onde encostar meu cansaço.

(eucanaã ferraz)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

para um poema de roseana murray (2)


que a poesia
apanhe apenas o invisível
em sua rede de nuvens e vento
por exemplo
o leve lamento que atravessa a casa
quando o passado invade
tudo de repente
e com sua teia transparente
paralisa o gesto
no meio do movimento

que a poesia diga
o que não pode ser dito
pedra e sentimento

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

para um poema de roseana murray


há os que na vida
se sentem confortáveis
como se a vida fosse
uma velha conhecida
uma vitrine eternamente posta

eu por mim sou daquela
tribo errante
dos que já nascem
com as veias cortadas

atravessar planetas e horizontes
e domesticar adagas

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

para um poema de manoel de barros

Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

para um poema de miguel torga



Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.
E, realmente...
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demônio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.


quarta-feira, 30 de setembro de 2009

ode à fuga

fugir às vezes é inventar estradas
em pleno pântano
e pontes sobre areia movediça
(adelaide amorim)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

prece


Senhora
das feras
e esferas

Senhora
do sangue
e do abismo

Senhora
do grito
e da angústia

Senhora
noturna
e eterna

- escuta-nos!
(orides fontela)

sábado, 15 de agosto de 2009

para um poema de clarice abdalla


Apenas uma trajetória visceral temporária
entre um lugar que é, sonha ser, sem deixar pegadas.
A única viagem sem retorno é o amor.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

para um poema de adília lopes


Eu julgava que aquilo era
um Luna Parque
saía-se como se entrava
e não acontecia nada irreversível durante
é o que é um Luna Parque
quando se é adolescente
mas não
quando dei por mim
já lá estava dentro
e não me lembrava
de ter entrado
quando disse agora quero-me
ir embora
riram-se ah minha rica
deste Luna Parque não se sai
quem cá vem não volta
não se volta atrás
então comecei a pensar
que ia passar o resto dos meus dias
no Luna Parque
acabas por aprender vais ver
a fazer das tripas coração
habituas-te vais ver
nos primeiros tempos dói
dá vontade de vomitar
depois percebe-se que
no Luna Parque que é
um sítio triste
pode não se ser triste
sai muito caro
mas poder pode-se

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

para um poema de suzana vargas





Quando escrevo o medo
é sempre o mesmo:
chegar atrasada ao que
quero dizer:

E de me dar por inteira
nua
e freira


terça-feira, 11 de agosto de 2009

para um poema de beth fleury



Com meu leite derramado
vou alimentar a ti
e aos exércitos
que nos erguerão acima do fogo
e de toda a dúvida.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

minguante

Da cuia da lua
a noite despejou estrelas
que beijei

derramou lágrimas
invernosas
que chorei.
Choveu.
(francis mary alves de lima)

domingo, 2 de agosto de 2009

para um poema de eucanaã ferraz

A palma da tua
mão não tem segredo
algum. Letra em tua mão
é de nome nenhum.
Não há mistério nem mensagem
no lenho aleatório.

Tua mão tem destino noutras palmas.
Confidência, piedade, ira. Deixa que,
aberta, distribua-se ao ponto – à perfeição –
de não ser mais tua mão: pátio,
pouso necessário de quem jamais te viu.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

aprendizado





Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado.Pensava que, somando as compreensões, eu amava.Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar fosse fácil.

Clarice Lispector

segunda-feira, 27 de julho de 2009

para um poema de pauline alphen


Partir não é nada senão voltar
voltar
voltar e

agora que vôo posso recomeçar a sonhar que fico

.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

para um poema de renata pallottini


Talvez as tuas mãos
Possam esculpir
Minha alma.

.


sábado, 18 de julho de 2009

para um poema de roberto piva


o mistério lunar da menina
lésbica
linda como um nenúfar
com seu nome de pássaro
levando na mochila
AS CANÇÕES DE BILITIS
uma coruja no ombro
& no sangue os gritos
dos náufragos de outrora

quinta-feira, 16 de julho de 2009

amor punk


aquele beijo na boca
que você me deu
semana passada
tá doendo até hoje
(nicolas behr)