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quarta-feira, 14 de julho de 2010

retrato de menina


Os cabelos, não.
Tampouco olhos.
Nada além do sorriso:pedras
que as palavras atravessam rápidas
como lagartos, muro
onde encostar meu cansaço.

(eucanaã ferraz)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

para um poema de roseana murray (2)


que a poesia
apanhe apenas o invisível
em sua rede de nuvens e vento
por exemplo
o leve lamento que atravessa a casa
quando o passado invade
tudo de repente
e com sua teia transparente
paralisa o gesto
no meio do movimento

que a poesia diga
o que não pode ser dito
pedra e sentimento

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

para um poema de manoel de barros

Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

para um poema de miguel torga



Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.
E, realmente...
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demônio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.


quarta-feira, 30 de setembro de 2009

ode à fuga

fugir às vezes é inventar estradas
em pleno pântano
e pontes sobre areia movediça
(adelaide amorim)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

prece


Senhora
das feras
e esferas

Senhora
do sangue
e do abismo

Senhora
do grito
e da angústia

Senhora
noturna
e eterna

- escuta-nos!
(orides fontela)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

para um poema de adília lopes


Eu julgava que aquilo era
um Luna Parque
saía-se como se entrava
e não acontecia nada irreversível durante
é o que é um Luna Parque
quando se é adolescente
mas não
quando dei por mim
já lá estava dentro
e não me lembrava
de ter entrado
quando disse agora quero-me
ir embora
riram-se ah minha rica
deste Luna Parque não se sai
quem cá vem não volta
não se volta atrás
então comecei a pensar
que ia passar o resto dos meus dias
no Luna Parque
acabas por aprender vais ver
a fazer das tripas coração
habituas-te vais ver
nos primeiros tempos dói
dá vontade de vomitar
depois percebe-se que
no Luna Parque que é
um sítio triste
pode não se ser triste
sai muito caro
mas poder pode-se

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

para um poema de suzana vargas





Quando escrevo o medo
é sempre o mesmo:
chegar atrasada ao que
quero dizer:

E de me dar por inteira
nua
e freira


terça-feira, 11 de agosto de 2009

para um poema de beth fleury



Com meu leite derramado
vou alimentar a ti
e aos exércitos
que nos erguerão acima do fogo
e de toda a dúvida.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

minguante

Da cuia da lua
a noite despejou estrelas
que beijei

derramou lágrimas
invernosas
que chorei.
Choveu.
(francis mary alves de lima)

domingo, 2 de agosto de 2009

para um poema de eucanaã ferraz

A palma da tua
mão não tem segredo
algum. Letra em tua mão
é de nome nenhum.
Não há mistério nem mensagem
no lenho aleatório.

Tua mão tem destino noutras palmas.
Confidência, piedade, ira. Deixa que,
aberta, distribua-se ao ponto – à perfeição –
de não ser mais tua mão: pátio,
pouso necessário de quem jamais te viu.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

aprendizado





Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado.Pensava que, somando as compreensões, eu amava.Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar fosse fácil.

Clarice Lispector

quarta-feira, 22 de julho de 2009

para um poema de renata pallottini


Talvez as tuas mãos
Possam esculpir
Minha alma.

.


sábado, 18 de julho de 2009

para um poema de roberto piva


o mistério lunar da menina
lésbica
linda como um nenúfar
com seu nome de pássaro
levando na mochila
AS CANÇÕES DE BILITIS
uma coruja no ombro
& no sangue os gritos
dos náufragos de outrora

quinta-feira, 16 de julho de 2009

amor punk


aquele beijo na boca
que você me deu
semana passada
tá doendo até hoje
(nicolas behr)


terça-feira, 14 de julho de 2009

para um poema de ana cristina cesar


te livrando:

castillo de alusiones
forest of mirrors

anjo
que extermina
a dor

sábado, 11 de julho de 2009

strip tease


quítate el sombrero
si lo tienes
quítate el pelo
que te abandona
quítate la piel
las tripas los ojos
y ponte un alma
si la encuentras
(blanca varela)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

quinta-feira, 14 de maio de 2009

para o meu sobrinho caio


Eu vi Mariquinha
Na beira do rio
Pescando peixinho
Tremendo de frio

Eu vi Mariquinha
Na beira da praia
Pescando peixinho
Enrolando na saia

Eu vi Mariquinha
Na beira do poço
Pescando peixinho
Atirando pros moços

(cantiga popular)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

para outro poema de sophia de mello andresen



Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea
Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilônia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive
Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo
Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém
Para poder soltar-se livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo