Tarde de domingo. Eu estava caminhando pela Paulista, máquina fotográfica na mochila. Parei pra expiar a feirinha que acontece na calçada do Trianon. No meio das barraquinhas, vi o retratista. Era o seu atelier. Local de expor seu trabalho e de se expor trabalhando. As pessoas param, olham, reconhecem retratos de famosos, reagem com admiração pela habilidade em realizar o desenho figurativo, a reprodução realista dos modelos vivos ou das fotografias apresentadas. Um ou outro não resiste ao desejo, pergunta o preço e encomenda um retrato.
Há vários desses retratistas pela cidade. O desejo de ter a imagem pessoal reproduzida é uma constante, só as formas é que variam. Pensando nisso, lembrei da história da fotografia e de como uma das primeiras demandas de uso daquela nova invenção foi para satisfazer o desejo de quem não podia pagar aos pintores para ter sua imagem reproduzida, eternizada. Inda que naquela época, as pessoas tivessem que passar horas e horas amarradas para garantir sua imobilidade até que a imagem fosse registrada no daguerreótipo.
Peguei a máquina e perguntei ao homem se poderia fazer um retrato do retratista. Ele consentiu. Mostrei como tinha ficado a pequena imagem digital e ele sorriu aprovando. Depois, perguntou se eu não poderia fotografar um quadro seu, um retrato a óleo que estava ali exposto. Ele queria colocar a foto do quadro no seu cartão de visitas. Eu disse que sim e comecei a procurar um ângulo onde a luz fosse mais favorável. Os papéis se inverteram e ele passou a me observar. Enquanto eu ajustava a máquina, pelos caminhos que só as associações de imagens conhecem, ele me perguntou de repente: - você assistiu aquele filme com o Clint Eastwood ? Ele era um fotógrafo...
- As pontes de Madison? – respondi procurando seu olhar. E percebi a expressão emocionada, o olhar repassando imagens como se estivessem sendo projetadas na linha do horizonte.
- Eu chorei muito – confessei, em expectativa para o que ele queria me comunicar.
E como se tivesse acabado de reavaliar uma decisão, ele me disse: - eu resolvi mudar. A vida é uma só. A mesma água não passa duas vezes por debaixo da ponte.